Liturgias da Falência — Ato III: O Aniversário

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Cinquenta anos, jantar comemorativo.
Além de meu filho de catorze anos e minha esposa, os convidados previstos eram: irmã, sobrinhos, um casal de amigos próximos e meus pais. A ideia inicial era cumprir o protocolo anual de encontro familiar no transcurso da minha data natalícia, com apartamento impecável, gastronomia sofisticada, descontração, música, atualidades e perspectivas. Joana cuidava da gerência do pessoal da cozinha e eu coordenava o apuro estético do apartamento com a equipe de limpeza. Os empregados, já familiarizados com minha postura rígida quanto aos detalhes e ajustes geométricos do mobiliário, agiam como num tipo de balé mecânico e automatizado. Da mesa em Jacarandá ao aparador de Peroba-do-Campo, cada centímetro detinha a sua própria harmonia. Na parede próxima ao aparador, havia disposto uma réplica de tamanho reduzido da obra Dark Over Light, de Mark Rothko, e, quinze centímetros à direita, uma réplica de La trahison des images, de René Magritte. Nesse contexto, além dos meus quadros, mais dois elementos detinham atenção particular: meu aparelho de som High Fidelity e meus porta-retratos. Estes eram dispostos sobre o aparador e eu procurava atualizá-los para registros o mais recentes possível. Eram quatro:
um com meu filho em Waimea Beach no ano passado,
um com minha esposa no último festival de cinema de Gramado em agosto,
eu e meus pais numa partida de gamão e um em que nós cinco estamos dispostos numa espécie de foto clássica de uma família tradicional, com meus pais sentados nas poltronas individuais em mogno que eu mandei fazer para ambos, com estofado em couro capitonê, à nossa frente, e eu, Joana e Pedro, atrás, com as mãos repousadas em seus ombros.
Finalizados os processos referentes à apresentação e asseio das salas de estar e de jantar, ergo o braço esquerdo e consulto as horas no meu relógio de cristal de safira abaulado, presente de papai do meu aniversário de 49 anos: 19h30. E, conforme previsto, os convidados começam a chegar. Jaqueline, com seu casal de filhos, e, logo em seguida, Anderson e Luciana, amigos de longa data. Os convidados são acomodados na sala de estar onde conversam sobre assuntos aleatórios. No ambiente, disputam protagonismo a heterogeneidade das vozes das conversas paralelas e a trilha sonora composta por uma seleção minuciosa de música clássica.
E Pedro se aproxima e pergunta:
— Pai, cadê o vovô e a vovó?
— Já devem estar a caminho, filho — respondo.
Aos primeiros acordes de Erwartung, de Schönberg, a campainha toca e meu filho corre para a porta declamando:
— Vovó, que saudade!
E adentram a sala dois idosos aparentemente da mesma faixa etária de meus pais, mas não são eles. O casal, agindo de forma bastante deliberada, move-se pelo apartamento com a desenvoltura de quem já era familiar aos presentes. Nesse momento, abaixo a cabeça disfarçadamente e me desloco para a sacada e permaneço lá observando a cena de longe. Joana se aproxima e entrega um
longo abraço regado a sorrisos e palavras incompreensíveis. Na sequência, minha irmã cumpre a mesma liturgia com ambos os idosos. A senhora do casal saca um pacote de sua bolsa e entrega a Pedro. Meu filho, eufórico, rasga o pacote e, emocionado, agradece:
— Vó, que legal! Resident Evil Requiem! Como sabia que eu queria este jogo?
— Sua mãe deixou escapar numa conversa ao telefone ontem — responde, sorrindo, a simpática senhora.
E, de fato, meu filho já havia comentado conosco que queria este jogo há algum tempo. Procuro me manter na sacada observando o casal por mais um minuto, quando decido que não posso mais ficar homiziado por muito tempo sem que os convidados notem meu sumiço.
Saio da sacada e adentro a sala de jantar e, em seguida, a sala de estar, onde todos se encontram aglomerados. O senhor vem em minha direção e me dá um longo abraço. Correspondo.
— Ah, sim! — diz, apontando para o meu relógio. — Ai de você se não estivesse utilizando o relógio que te dei! Ele me custou uma pequena fortuna, lembra? — comenta, sorrindo, e diz em seguida:
— Feliz aniversário, meu filho.
E passa a mão pelos meus cabelos.
Acompanho o sorriso e agradeço as felicitações.
Em seguida, a senhora chega e também me dá um longo abraço, o qual retribuo, e diz:
— Filho, parabéns! Você está muito bem, muito bem cuidado!
— Obrigado, obrigado — respondo.
Sigo observando o casal, seus movimentos e interações. Jaqueline os trata normalmente e recebe o mesmo tratamento. Decido ir ao banheiro. Olho-me no espelho, o qual está impecavelmente limpo, sem quaisquer arranhões ou sujeira, e fico um tempo, respirando fundo e refletindo sobre minha imagem no espelho.
Saio do banheiro, vagarosamente, esperando que, ao retornar, o problema tenha sido resolvido. Mas não. Os dois idosos ainda estão lá, agora conversando com os empregados, com intimidade e abertura, considerando que trabalham para mim há longa data. Comportando-me de forma esquiva, sigo para o aparador. Capturo o porta-retrato em que constam meus pais e, ali, eles são, de fato, aqueles que eu entendo serem meus pais — e não aqueles idosos que se encontram em meu apartamento.
Invento uma desculpa para Joana:
— Preciso ir à garagem. Acho que esqueci um contrato na mala do carro.
Ela me devolve um sorriso.
Dirijo-me ao elevador, pressiono P e, na descida, olho fixamente meu rosto no espelho ao lado do painel e percebo uma incongruência na altura da minha costeleta, o que me gera relativo incômodo. Sigo em direção à portaria visando a solicitar ao porteiro que verifique as câmeras de segurança.
— Marcos, por favor, preciso ter acesso aos registros das câmeras de segurança dos últimos 20 minutos — peço cordialmente. Sendo o síndico do prédio, não enfrento quaisquer resistências por parte de Marcos.
Vamos à sala com as telas referentes às diversas câmeras espalhadas pelas instalações do prédio. Ele identifica a tela correspondente à câmera da portaria e, por meio de comandos inseridos no teclado, retroage exatos quinze minutos. Ao pressionar play, constato por meio das imagens que os idosos que ali foram filmados são, de fato, meus pais e não os idosos que agora estão em meu apartamento, interagindo com a minha família. Peço acesso à câmera do elevador. Ele o fornece e lá estão eles, meus pais, subindo normalmente pelo elevador. Por último, peço acesso à câmera do corredor do meu andar e vejo, mais uma vez, meus pais, exatamente como os conheço desde sempre.
— Obrigado, Marcos.
— Algum problema, doutor? — pergunta ele.
— Não, está tudo bem — respondo, resoluto, e retorno ao elevador.
Pressiono o número do meu andar e retorno rapidamente ao espelho, bastante incomodado com a falha lamentável na altura das costeletas. Uma se encerra na parte inferior do trago da orelha esquerda e a outra mais próxima do meio. Profiro alguns impropérios ao barbeiro. Retorno ao apartamento. Todos sentados, sorrindo e contando histórias.
O senhor me chama e me entrega uma caixa relativamente pesada.
— Toma. Acha que eu iria esquecer? — diz o velho, de forma expansiva.
Abro a caixa e verifico: Casa Ferreirinha Barca-Velha, meu vinho favorito.
— Obrigado, vou abrir — respondo eu, já me dirigindo à cozinha.
Abro o vinho, sirvo duas taças e me dirijo ao aparador. Observo mais uma vez, atentamente, a foto dos meus pais e dirijo minha atenção ao velho. Olho de novo para a foto e digo a mim mesmo, de forma quase inaudível:
— Cinquenta anos.
Sem sorrisos, entrego a taça ao velho e ofereço um brinde:
— Saúde!
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