Ficção literária
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Onde me plantam, fico

4 min ler·3 de junho de 2026·
white concrete building near green trees under blue sky during daytime

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Quando entrei em casa pela primeira vez apercebi-me; esta é a tal. Seria ali que iria viver o resto da minha vida. Colada à janela da sala, a observar a rotina da praça. Virada a este, num pequeno apartamento no topo do prédio mais alto das redondezas.

A vida não tem sido fácil. Uma constante luta pela sobrevivência, tanto metafórica como literalmente. De onde sou nem todos os que nascem sobrevivem, a comida por vezes é escassa. Nesta zona, nascer aqui ou ali, onde na realidade é uma diferença meros metros ao lado, faz toda a diferença entre viver para ver um dia novo ou morrer.

São poucos os que chegam à idade adulta. São ainda mais raros os que saem da zona e vão explorar outros locais. Sinto-me sortuda por tudo o que tive oportunidade de experienciar até então. Desde o silêncio das florestas ao constante burburinho das cidades; o completo oposto mas ambos me trazem paz. Se há sol, água e comida, vai claramente um bom dia. Não é que desgoste dos dias de chuva, muito pelo contrário; o cheio de terra recentemente molhada é do melhor que há nada nesta vida.

Sobrevivi semanas numa floresta sem nada em redor, atravessei mares revoltos e voei para além do que alguém como eu alguma vez sonhava ir. E após isto tudo, finalmente vou poder descansar. Sem preocupações, no último andar daquela casa tão modesta, até ao final dos meus dias. Não tenciono viajar mais, não por não poder pois considero-me ainda jovem mas, porque já está nada hora.

Numa das típicas ruas inclinadas da capital, por entre ruas e ruelas de sentido único, ali está o prédio mais alto do barro. Todos os edifícios tem dois ou três andares, coisa baixa para capital. Mas este é um sítio antigo, o típico bairro de Lisboa. Com varandas e portadas, janelas e vizinhas. Todas umas ao lado das outras, com tráfego pedonal a todas as horas do dia, o último da rua é um prédio de cinco andares. Algo inovador para a época em que foi construído, algo antigo para os dias de hoje. Azulejos na façada, varandas de ferro retorcido e trabalhado, canteiros vasos aos potes posicionados e pendurados em cada janela. Aqui não falta vida!

O terraço da casa é o melhor sítio da casa. Estar ali nas tardes de verão a estorricar ao sol, enquanto oiço o burburinho da vida na cidade a acontecer ali ao virar da esquina. Não trocava isto por nada. Os verões são bons mas as primaveras são as melhores. O cheiro das flores a finalmente espreguiçarem-se depois da hibernação do inverno. Meus irmãos e irmãs, como gostaria que todos nós pudéssemos chegar a esta etapa da vida, onde todas as preocupações são memórias do passado. Este é o sitio mais confortável, e não há nada que se possa prever que mude este momento por umas boas temporadas.

Uma vida caótica até aqui chegar, a este momento na minha vida. Muita dela ficou perdida na memórias de anos de traumas. Dessas memórias restam as muitas cicatrizes que demarcam tantos bons como maus momentos. Quantos descendentes terei por esse mundo fora? Sinceramente nunca irei saber. Alguns foram criados por escolha, outros à força. Sinto-os espalhados por esta Terra a quem chamamos de Mãe. Os sobreviventes lutam pela igualdade, entre a vida na terra qualquer que seja a forma que ela esta.

O planeta e a sua sobrevivência, isso é algo que me preocupa. Apesar da paz que me rodeia, há certas notícias que magoam a alma. Florestas e cidades e golfadas por chamas, guerras entre humanos violentos e teimosos; continuamos sem ouvir quem tem mais conhecimentos entre nós. Historiadores, cientistas, a geração passada. Se no presente nos esquecermos do passado, o futuro não será fácil.

O dia que entrei nesta casa, nas mãos da Laurinda, soube que era ali o meu sítio. Encontramo-nos por mero acaso um dia de verão no mercado de Lagos. Tinha acabado de pousar a trouxa à um par de dias atras. Não sabia para onde iria a seguir. Só o vento e a maresia poderiam prever. Ela agarrou em mim e nunca mais me largou, até chegarmos uns dias depois à bela casa num qualquer bairro de Lisboa. Quando a minha vida se entrelaçou com na vida dela o meu mundo acalmou. Como que um toque divino, cada dia que passou acalmou os meus problemas e preocupações até que todos se dissiparam.

Muitas pessoas já passaram por esta casa. Era nova e moderna quando foi comprada, pelos pais da Laurinda. Eventualmente ela ficou sozinha nela e trouxe para cá o seu companheiros Não muito depois veio o primogénito. Dois mais vieram depois. E do mais velho veio a neta preferida dela. Que se decidiu mudar para aqui para casa o ano passado. Todos, desde que cá vivo, sempre foram gentis comigo. A Laurinda encontrou-me quando tinha menos de 50cm, uma planta jovem, posta numa vaso que hoje em dia me seria pequeno. Sempre à janela da sala, virada a este. Com muitos dias de sol passados na varanda. Com muito carinho de todos que me dão alimento, água e sol.

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StorySloth Publicação verificada

SS-6A8C-1763
Título

Onde me plantam, fico

Publicado

3 June 2026

Contagem de palavras

860

Género

Ficção literária

Referência
SS-6A8C-1763

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Foto da capa por Christian von Koenig sobre Unsplash